Voltar ao blogue
Análise técnica aprofundada Ligação à terra Raios CEM

Quando o caminho mais curto não é o caminho da corrente

Uma análise técnica aprofundada da distribuição de corrente em corredores de linhas aéreas sob condições de defeito a 50 Hz e de impulso de raio.

10 min de leitura
Resumo

O mesmo corredor de linha aérea pode comportar-se como uma rede de terras distribuída durante um defeito à terra a 50 Hz, mas como um problema local de corrente de impulso durante um raio. Esta diferença altera os percursos da corrente, o risco de tensão de contacto e os esforços sobre a infraestrutura.

Principais conclusões

  • A distribuição de corrente em infraestruturas lineares não é apenas uma questão de localização; depende também do regime da fonte.
  • A 50 Hz, um corredor de linha aérea pode repartir a corrente de defeito por numerosos sistemas de ligação à terra dos apoios.
  • Sob condições de impulso de raio, a maior parte da corrente pode permanecer junto do ponto de injeção.

Distribuição de corrente em corredores de linhas aéreas sob condições de defeito e de raio.

Introdução

Nos estudos de sistemas elétricos e de proteção contra raios, é tentador imaginar o fluxo de corrente de forma simples: a corrente entra numa estrutura, encontra o caminho mais curto ou «melhor» para a terra e dissipa-se principalmente através do sistema de ligação à terra mais próximo.

Para um único apoio de uma linha aérea de transporte, esta intuição conduz a uma expectativa comum: durante um defeito à terra, a maior parte da corrente deveria entrar na fundação do apoio afetado e retornar localmente através do seu sistema de ligação à terra.

No entanto, uma infraestrutura linear não se comporta como um elétrodo isolado.

Um corredor de linha aérea é um sistema eletricamente acoplado: apoios reticulados, cabos de guarda, condutores de fase, fundações dos apoios, camadas do solo, sistemas de ligação à terra das subestações e infraestruturas próximas fazem parte do mesmo ambiente eletromagnético. A distribuição de corrente depende não só da geometria, mas também do regime da fonte.

Um defeito à terra a 50 Hz e um impulso de raio podem utilizar o mesmo corredor físico, os mesmos apoios e os mesmos sistemas de ligação à terra — mas não seguem necessariamente o mesmo percurso de retorno.

Para tornar este efeito visível, consideremos um exemplo representativo simples: um corredor de linha aérea de 220 kV com apoios reticulados, um cabo de guarda, um condutor de fase, sistemas de ligação à terra dos apoios não uniformes e terminações equivalentes nas duas extremidades do corredor.

São comparados três regimes de funcionamento:

  1. um defeito à terra a 50 Hz com redistribuição de corrente predominantemente óhmica,
  2. um defeito à terra a 50 Hz que inclui o acoplamento com o condutor de fase,
  3. um impulso de raio de 10/350 µs aplicado ao mesmo corredor.

O objetivo é demonstrar um efeito prático de engenharia: a mesma infraestrutura pode produzir distribuições de corrente completamente diferentes consoante a excitação seja um defeito à frequência industrial ou um impulso de raio.

Este aspeto é importante para as tensões de contacto junto aos apoios, a avaliação da ligação à terra, as condutas próximas, os sistemas de cabos, as infraestruturas ferroviárias, as vedações e o projeto de proteção contra sobretensões.

O corredor do exemplo

O exemplo é intencionalmente simples: um corredor representativo de linha aérea de 220 kV entre duas subestações. O corredor inclui apoios reticulados, um cabo de guarda, um condutor de fase e sistemas individuais de ligação à terra dos apoios.

Corredor de linha aérea com vários apoios entre as subestações Sul e Oeste

Corredor representativo com vários apoios utilizado para comparar o comportamento perante defeitos a 50 Hz e impulsos de raio na mesma geometria física.

O apoio 10 é selecionado como ponto de injeção de corrente. Isto permite comparar a mesma geometria sob diferentes regimes da fonte: um defeito à terra a 50 Hz e um impulso de raio.

Para tornar o exemplo mais interessante, não se pressupõe que as resistências de terra dos apoios sejam uniformes. Este aspeto é importante porque os corredores reais raramente apresentam condições de solo e de ligação à terra idênticas em todos os apoios. No exemplo, um apoio tem uma resistência de terra muito baixa, enquanto o apoio de injeção apresenta um valor comparativamente elevado. Isto cria um caso de estudo útil: a corrente permanece junto do ponto de injeção ou desloca-se ao longo do corredor para encontrar um percurso de retorno melhor?

O mesmo corredor, três regimes da fonte

O mesmo corredor é comparado sob três regimes da fonte diferentes:

  1. redistribuição óhmica de uma corrente de defeito à terra,
  2. um defeito a 50 Hz que inclui o acoplamento com o condutor de fase,
  3. um impulso de raio no apoio 10.

O primeiro caso representa o modelo clássico de «escada do cabo de guarda». O segundo acrescenta o acoplamento eletromagnético entre o condutor de fase e o cabo de guarda. O terceiro altera completamente o problema: devido ao conteúdo de alta frequência do impulso de raio, a impedância indutiva do cabo de guarda torna-se dominante.

Mesma geometria. Mesmos sistemas de ligação à terra. Regime da fonte diferente — percurso da corrente diferente.

A visão global numa única imagem

Antes de analisar as correntes em cada apoio, é útil observar o potencial à superfície do solo em redor do corredor.

A figura abaixo mostra o mesmo corredor sob os três regimes da fonte. A geometria não se altera. Os sistemas de ligação à terra não se alteram. Apenas muda o regime da fonte.

Potencial à superfície do solo em redor do corredor sob três regimes da fonte

Potencial à superfície do solo no mesmo corredor sob redistribuição óhmica, acoplamento com o condutor de fase a 50 Hz e condições de impulso de raio.

A diferença é imediatamente visível.

No caso da redistribuição óhmica, a distribuição de potencial é ampla. O corredor comporta-se como um sistema eletricamente interligado e a corrente de retorno distribui-se por uma grande parte da linha.

No caso do defeito a 50 Hz com acoplamento de fase, a imagem torna-se mais estruturada: cada apoio produz uma elevação de potencial mais localizada e a contribuição global da corrente de terra é reduzida.

Sob condições de impulso de raio, o comportamento altera-se por completo. A elevação de potencial concentra-se em redor do apoio 10, quase como um alvo. O corredor deixa de se comportar como uma rede de distribuição de corrente de baixa impedância; o impulso permanece sobretudo localizado.

Esta é a mensagem central do artigo:

o mesmo corredor, os mesmos sistemas de ligação à terra — mas um percurso da corrente completamente diferente.

Resultado 1 — a corrente a 50 Hz «vê» toda a rede de terras

O caso de 50 Hz é já menos intuitivo do que seria de esperar.

No apoio de injeção, a corrente não «vê» apenas o sistema local de ligação à terra. Através do cabo de guarda, vê também as ligações à terra dos apoios vizinhos nas duas direções.

Em termos simples: muitos sistemas de ligação à terra dos apoios funcionam em conjunto como um percurso de retorno distribuído em paralelo.

É por esta razão que a corrente não abandona necessariamente a estrutura no ponto onde o defeito é aplicado.

No caso óhmico, o apoio 10 conduz cerca de 8,9% da corrente de defeito injetada. No entanto, o apoio 5, situado a vários vãos de distância, conduz cerca de 10,1%.

Porquê? Porque o apoio 5 tem uma resistência de terra inferior. Para a corrente, é simplesmente uma saída mais favorável para o solo.

Quando o condutor de fase é incluído, a parcela correspondente ao apoio 10 torna-se ainda menor. Isto demonstra que o acoplamento entre o condutor de fase e o cabo de guarda pode alterar de forma significativa a corrente que retorna através dos sistemas de ligação à terra dos apoios.

A 50 Hz, o corredor partilha o problema.
A localização do defeito é importante — mas não conta toda a história.

Corrente no pé de cada apoio sob redistribuição óhmica a 50 Hz e acoplamento de fase a 50 Hz

Corrente no pé de cada apoio nos dois casos de 50 Hz, mostrando como o corredor participa enquanto percurso de retorno distribuído.

Resultado 2 — a corrente do raio permanece localizada

O caso do raio apresenta um comportamento completamente diferente.

Para o impulso de 10/350 µs, o apoio 10 conduz cerca de 89% da corrente injetada. Os vizinhos imediatos ainda participam, mas, após alguns vãos, a contribuição da corrente torna-se muito reduzida.

Porquê?

A 50 Hz, o cabo de guarda comporta-se como uma ligação de baixa impedância entre os sistemas de ligação à terra dos apoios. O corredor ajuda a distribuir a corrente.

Sob condições de raio, o conteúdo de alta frequência muda a situação. A impedância indutiva do cabo de guarda torna-se dominante e cada vão acrescenta impedância.

Assim, a corrente de impulso não «percorre» o corredor da mesma forma. Permanece sobretudo onde entra.

Por este motivo, o sistema local de ligação à terra do apoio de injeção torna-se muito mais importante para a elevação do potencial, o risco de tensão de contacto e os esforços sobre as infraestruturas próximas.

Corrente no pé de cada apoio para um impulso de raio equivalente a 100 kA

Corrente no pé de cada apoio no caso do raio, em que a maior parte da corrente de impulso injetada permanece junto do apoio 10.

Resultado 3 — a distribuição de corrente torna-se uma questão de segurança

A tensão de contacto diretamente no pé do apoio não é, muitas vezes, o principal cenário prático de trabalho. Em muitos casos, não se prevê que alguém toque num apoio de transporte durante um defeito.

Ainda assim, o resultado no pé do apoio é útil como exemplo demonstrativo: mostra de que forma a elevação local do potencial e a distribuição de corrente podem tornar-se uma questão de segurança para as infraestruturas próximas.

Alguns exemplos realistas são:

  • um técnico a trabalhar num posto de ensaio de uma conduta,
  • pessoal a manusear a bainha de um cabo ou a trabalhar num traçado de telecomunicações ou de fibra ótica,
  • uma vedação, um portão, um armário ou uma caixa de junção perto da secção de linha afetada,
  • um corredor de condutas ou um sistema ferroviário próximo da linha aérea.

Como referência, considere-se um tempo curto de eliminação do defeito de 250 ms e um nível de cerca de 1 kV para a tensão de contacto presumida.

No apoio 10, o valor calculado está claramente acima deste nível nos dois casos de 50 Hz.

A mensagem prática é a seguinte:

Um apoio não precisa de conduzir a maior parcela da corrente total de defeito para se tornar crítico para a segurança.
Uma resistência de terra local elevada pode ainda assim criar uma elevação local crítica do potencial — e as infraestruturas próximas também podem ser afetadas.

Tensão de contacto presumida mais desfavorável no pé de cada apoio nos casos de 50 Hz

Tensão de contacto presumida mais desfavorável no pé de cada apoio nos casos de 50 Hz, ilustrando por que razão a distribuição de corrente se torna uma questão de segurança.

Resultado 4 — a conclusão: o mesmo corredor, um percurso da corrente diferente

Esta é a história completa numa única imagem.

No caso óhmico, a corrente distribui-se pelo corredor.

Quando se inclui o acoplamento com o condutor de fase, a distribuição volta a mudar.

Sob condições de impulso de raio, a situação inverte-se: a maior parte da corrente permanece junto do apoio 10.

Mesmo corredor.
Mesmos sistemas de ligação à terra.
Regime da fonte diferente.
Percurso da corrente diferente.
Esforços diferentes sobre a infraestrutura.
Risco de segurança diferente.

Distribuição da corrente no pé dos apoios entre o apoio de injeção, os vizinhos e os restantes

Repartição da corrente pelo apoio de injeção, pelos apoios próximos e pelo restante corredor em cada regime da fonte.

Parcela aproximada da corrente no pé dos apoios por região do corredor nos três regimes comparados.

CasoApoio atingido (A10)4 vizinhos mais próximos15 outros apoios
Redistribuição óhmica9 %30 %60 %
50 Hz com acoplamento de fase8 %26 %66 %
Raio, 10/350 µs85 %15 %< 1 %

Mesmo equipamento. Regime diferente. Uma distribuição de corrente completamente diferente.

O que retiro desta análise

A principal conclusão é simples:

A distribuição de corrente em infraestruturas lineares não é apenas uma questão de localização.
É uma questão do regime da fonte.

O mesmo corredor pode comportar-se como uma rede de terras distribuída sob condições de defeito à terra — e como um problema local de corrente de impulso sob condições de raio.

Isto é importante para a tensão de contacto, a avaliação da ligação à terra, as condutas, os traçados de cabos, os sistemas ferroviários, as vedações, os armários e o projeto de proteção contra sobretensões.

Contacto

Fale-nos do ativo e da questão — explicaremos como a abordaríamos.

Prefere enviar diretamente uma mensagem de correio eletrónico? info@ionlinx.com

Tratamos as informações fornecidas para responder ao seu pedido. Encontrará mais informações na nossa Política de privacidade .